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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Editorias / Opinião - DM-GO
Discorrendo sobre o novo na política - Fernando Safatle
23 de Abril de 2010
O processo eleitoral cria um ambiente onde o imaginário das pessoas cultiva com predileção tudo que possa parecer como o novo. O novo na política, sob as mais diferentes formas, exerce um fascínio extraordinário sobre as pessoas. Certamente, existe uma forte correlação na mente das pessoas do novo com o dinamismo, o arrojo, a ousadia, o empreendendorismo e a mudança que, por conseguinte, leva ao desenvolvimento e a prosperidade. É claro, a leitura que se faz é que tudo isso vai desembocar na abertura de novas oportunidades para todos refletindo em melhoria das condições de vida da população como um todo. Talvez seja por isso que os políticos de todos os matizes querem se apresentar como o novo no processo eleitoral.
É comum o jovem de idade querer se apresentar como o novo. Pode ser que o seja. Mas pode ser que seja o contrário: o velho. Isto por que na política o novo não se traduz pela idade física do candidato, e, sim, pelas suas ideias. O jovem fisicamente pode ser arejado e progressista, como também, na maioria das vezes, pela sua pobre formação política pode se apresentar como retrógrado, conservador e preconceituoso.
O mesmo pode se dizer do mais velho na idade. Manteve-se arraigado nos velhos princípios que não condiz mais com o mundo moderno, ou se fincou seus pés na velha prática partidária centralizadora e autoritária, ficou ultrapassado no tempo e não se reciclou? Neste caso, o velho se personifica facilmente, pois a idade avançada casa com a prática velha e carcomida. Na mente das pessoas, a associação é fatal com resultados desastrosos na eleição. Em outras circunstâncias, o mais velho fisicamente, se conseguir se superar e renovar sua pratica política, mudar seus conceitos e se colocar antenado com o debate e a temática do mundo moderno, pode se apresentar como o novo se contrapondo com o mais jovem, mas tipificado como a modernização conservadora.
Não é fácil fazer esse contraponto. O discurso por si só não tem essa capacidade de transmutar o jovem no velho político e o velho no novo político. Mesmo porque ambos, evidentemente, usam o discurso para se apresentarem como o novo na política.
A verdade, como dizia o velho filósofo barbudo, está na prática. Portanto, não basta fazer discurso sobre o novo. O critério da verdade está em exercitar o novo na prática.
Não tenho dúvida de que o que dá sentido de novo na política é a pratica democrática. O resto é discurso vazio, sem conteúdo.
A forma democrática de conduzir a política de alianças, dando espaços para os partidos não somente na formação das chapas majoritárias e proporcionais, mas no processo mesmo de composição e coordenação que se consubstancie em uma condução de campanha aberta e arejada é, positivamente, uma prática com sentido novo. Como também, a elaboração de uma forma democrática do programa de governo, traduz o novo na pratica política. Fundamentalmente porque, a apresentação do programa de governo pelos candidatos se transformou em um rito obrigatório, contudo, sem nenhum compromisso de implementação por parte deles. Isto por um lado. Por outro, utilizam ainda, na maioria das vezes, de técnicas de planejamento que já estão ultrapassadas. São técnicas de um planejamento tradicional, que amputam a realidade e não expressam a diversidade de uma realidade complexa, o que traduz, ao final das contas, em verdadeiro amontoado de propostas que não viram absolutamente nada. E ainda tem político que junta aquele festival de promessas e registra em cartório, como se o fato de registrá-lo, por si só, garante sua viabilidade e realização. Puro jogo de cena.
Ainda, no processo de elaboração democrática do programa de governo, debater com os segmentos mais variados da sociedade civil, não para simplesmente ouvi-los sobre uma determinada proposta, mas, sim, para levantar suas próprias opiniões sobre uma realidade que lhes interessa. Ora, o empresário e o trabalhador, por exemplo, têm opiniões distintas sobre a redução da jornada de trabalho. O programa de governo tem que ter a capacidade de incorporar as duas posições distintas sobre um mesmo problema e criar os mecanismos capazes de processá-la politicamente, e não simplesmente ouvi-los e misturar suas opiniões, como se fosse um liquidificador e oferecer uma proposta insossa e inodora.
Goiás é sedento de novas ideias e quem aspira ao poder precisa exibi-las. Para que se possa dar o salto para o futuro é preciso desatar os nós que nos prendem ao passado. O fundamental para isso é incorporar propostas que sejam contemporâneas e presentes no cotidiano das pessoas de uma forma democrática e popular.
Portanto, a busca do novo é uma caminhada que se constrói com uma prática democrática em todos os níveis. Do contrário, o jovem pode envelhecer politicamente e o novo pode nascer das entranhas do velho.

Fernando Safatle é economista (fernando.safatle@gmail.com)

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